20 Anos Atrás ! Um pouco da história das corridas em São Paulo

Cá estou de volta!

Essa semana com uma gripe daquelas, fiquei parado e o treinamento para Maratona do Rio foi pro vinagre.

Na terça-feira (09/06) corri na hora do almoço que além de mais quente, não chovia. Com isso, consegui duas coisas: – transpirar um pouco para ver se a gripe ia embora e torcer meu pé direito! Resultado, a gripe ficou muito pior (garganta, ouvido e dor de cabeça) e até hoje, conforme a posição do pé, ainda sinto a torção! Hoje, sexta-feira, acordei um pouco melhor (seria o vinho de ontem?) e, amanhã, vamos tentar juntar os amigos para fazer uns 25K, se possível, sem subidas. Vamos ver!

Bom, na nossa última conversa, prometi que contaria as peripécias da minha primeira maratona há 20 anos, então, vamos lá:

Naquela época, 1.989, eu corria o que me era permitido, ou seja, além de umas parcas provas de 6 e 10K em algum bairro ou em competições nos clubes por ai, tinha a Volta da USP e olhe lá. Aliás, não me lembro de nenhuma prova mais especial além da Volta da USP e da São Silvestre feita à noite e na passagem do ano.

Aventurava-me também nas “meias” que nos anos 80, ao menos para nós de São Paulo, se traduzia na – MEIA MARATONA DA INDEPENDÊNCIA – que organizada pelo Grupo da Gazeta deveria acontecer todo dia 7 de setembro, mas na verdade acontecia quando era possível, ou seja, em algum dia do mês de setembro ou de outubro ou pior, não acontecia por falta de patrocínio.

 Imaginem se agora, com toda essa badalação em volta das corridas de rua, é “missão impossível” arrumar patrocinadores, nos anos 80 era dar murro em ponta de faça. Só mesmo o pessoal da GAZETA com a historia do seu fundador e com pessoas como o Julio Deodoro na diretoria de esportes e o Vasco na organização, ambos grandes entusiastas das corridas de rua que a reboque da S. Silvestre se arriscavam na aventura de promover, organizar e executar uma Meia Maratona da Independencia na Cidade de São Paulo.

Na época São Paulo era conhecida como a cidade cemitério das corridas de rua do Brasil.

Parênteses: – Nos anos 80 era José Ignácio Werneck, hoje na ESPN Internacional e na época um dos fundadores da Revista Viva, jornalista esportivo que com seus contatos no Jornal do Brasil e junto à municipalidade, viabilizava e executava a maratona e alguns triátlons no Rio de Janeiro. 

O Rio era a locomotiva das corridas de rua do Brasil. Bom, mas isso é outra historia e vamos voltar ao foco senão esta história não tem fim.

HORA DA LARGADA

HORA DA LARGADA

Com alguma experiência de corridas, isto era o que eu achava, lá estava na linha de partida eu com mais uns 400 ou 500 corredores, todos prontos para correr a Maratona de São Paulo. Pasmem, um dia antes, no sábado, fiz uma experiência: – Como nunca tinha corrido nada além de 21 km, achei melhor correr (escondido dos amigos que iriam fazer comigo no dia seguinte a maratona) uns 25 km em Alphaville.

Por que isso? Ora, se conseguisse correr bem 25 km no sábado, correr no domingo 40 km ou sei lá qual era a distancia correta da maratona, eu também conseguiria!

Reflitam comigo: Pode alguém ser mais cretino do que EU?

Naqueles anos, não havia nenhum informação para pobres mortais como eu que de corrida só entendia que tinha que largar e seguir o corredor da frente até a linha de chegada. Hidratação, tênis e roupa adequada era coisa de americano.

Havia aqui no Brasil uma revista chamada VIVA que eu não conhecia e que tinha alguma informações das ações e dos materiais existentes nos Estados Unidos. Nós, corredores tupiniquins com um pouco de recursos, por aqui corríamos mesmo era com um tênis marca Rainha que em seu último lançamento tinha como amortecimento o calcanhar do corredor. Outros, menos privilegiados e grande maioria na atividade corriam de “Bamba”, “KiChute” ou descalços mesmo!

Só no inicio dos anos 90 é que corredores que viajavam esporadicamente para USA (Maratona de Nova Iorque estava virando moda por aqui), traziam nas malas alguns pares de tênis de corridas “corretos”, quer dizer mais corretos que os brasileiros, mas centenas de milhares de kms longe da tecnologia que temos a disposição hoje.

Querem mais, não me lembro quando começou aparecer Garotade em corridas, mas seguramente faz pouco tempo. Gel, vitaminas e solução revigorantes que tem objetivo de dar melhores condições de desempenho, hoje aos montes no mercado, nem se fala. Hoje, corriqueiras, são muito atuais.

Senão me engano, Medicina Esportiva é coisa de 1.992 ou 1.993.

Bom, voltando: – Após a largada, íamos pelas ruas do bairro do Ibirapuera, ao redor do Parque, até alcançarmos a Avenida Rubem Berta seguindo em direção ao Aeroporto de Congonhas. E foi ai, mais ou menos no meio da Rubem Berta, que a coisa aconteceu.

Na nossa frente, “costurando” os corredores e na direção oposta, ou seja, de frente para nós, vem um carro (não lembro qual, acho que uma Brasilia) em alta velocidade sendo perseguido por “Veraneios” da Policia Militar. Os guardas com meio corpo fora do carro atiravam pra valer em direção ao carro fugitivo e conseqüentemente nos corredores. Se isso acontece em qualquer corrida nos dias de hoje, certamente não haveria tiros, não daria tempo, pois o carro fugitivo + os da policia fariam o maior strike de corredores… Foi uma cena que ficará gravada na memória de quem, como eu, estava presente a Maratona de São Paulo 1989.

Bom, esse foi o primeiro fato. O segundo foi o clima. Frio, mas muito frio e uma tempestade daquelas.

Conversando a pouco por telefone com o Vasco, já naquela época o responsável pela organização da prova e para quem não sabe esse cara é o Pilar Central da historia da organização das corridas de rua do Brasil e deveria ter uma praça no Parque do Ibirapuera ou na USP com o nome dele, me lembrou que os promotores e patrocinadores daquela edição da Maratona de São Paulo era a Paulista de Seguros e a Jovem Pan que promoveria um enorme show depois da maratona e por causa da tempestade que caiu no dia, não aconteceu.

O show programado teria Placa Luminosa, Kid Abelha e os Aboboras Selvagens – grupo liderado por Paula Toller – e outros importantes conjuntos da época que se apresentariam no Constâncio Vaz Guimarães, junto à pista Ícaro de Castro Mello, local da chegada da Maratona de São Paulo. Vejam que, estamos falando de 1.989, portanto corridas de rua e show musical não é coisa atual e nem inovação do departamento de marketing de alguma marca esportiva.

Naquela época, apesar de não haver recursos, o romantismo e o entusiasmo rolava solto e falava mais alto. Os corredores corriam como era possível e os organizadores faziam o que podiam para acontecer por aqui o que acontecia, por exemplo nas olimpíadas e convenhamos chegar dentro na pista de atletismo Ícaro de Castro Mello com um show musical era o máximo dos máximos, principalmente para mortais como eu que mesmo sem informação ou tênis apropriado, tínha como meta completar a minha primeira maratona da melhor maneira e tempo possível.

Continuando, lembro que após chegarmos às proximidades do aeroporto, retornávamos pela outra pista da Ruben Berta até o final da 23 de maio onde, mas proximidades dos “Arcos do Janio” acessávamos o minhocão. De lá partíamos em direção a Avenida Francisco Matarazzo até as proximidades do glorioso Palestra Itália retornando ao minhocão, Avenida 23 de maio agora na “vertical ascendente” principalmente atrás do Hospital Beneficência Portuguesa que tem uma subida terrível bem no final da prova (km 39 ou 40). Completando e para acabar com a lombar de qualquer sobrevivente, na seqüencia, uma “vertical descendente” em direção a pista de Atletismo Ícaro de Castro Mello.

Lembro que no minhocão tinha uma ventania que cortava a pele e me matava de frio. Ela temperada com a tempestade que fez o dia virar noite aumentava ainda mais o peso da roupa e a angustia do km 30.

Junte a isso tudo a sensação de abandono – não havia nenhum corredor à minha frente ou atrás – naquele momento era dor no corpo, cansaço e desanimo de dimensões avassaladoras. Isso sem falar que o espertalhão aqui, havia corrido “os estimulantes” 25 km um dia antes, lembram-se? Não foi mole e tenho certeza nunca mais esquecerei a experiência!

Outra recordação e essa muito estranha e incompreensível para mim na época é a de um camarada que ficava no meio da subida da Avenida 23 de maio, aquela atrás do Hospital Beneficiencia Portuguesa.

Ele corria junto com cada corredor e falando pausadamente dizia para não desanimar, pois o final da prova estava muito próximo, etc., etc. Trotando ao ritmo do corredor, descrevia com muita paciência o resto do percurso dando a distancia até a linha de chegada.

Momento inesquecível, achei que esse cara era um misto de maluco (99%) e anjo (1%), afinal estava lá sozinho e embaixo de uma bruta tempestade dando força para quem ele nem conhecia. Esse foi o primeiro exemplo que presenciei e que me mostrou o quanto o corredor de rua é solidário e diferente. A atitude dele era apenas uma forma de expressão de uma pessoa do bem.

Reflita comigo, o cara anonimamente estava lá, em baixo de bruta chuva, dando conforto e animo para aqueles pouquíssimos corredores molhados e roxos de frio com o único propósito de “empurrá-los” para a linha de chegada. Não é o máximo?

Nunca mais me esqueci dessa atitude!

Bom, 03h55m depois do tiro de largada, lá estava eu finalizando a minha primeira maratona e prometendo a mim mesmo que seria a primeira e última. Isto aconteceu há 20 anos!

03 meses depois voltei para as corridas.

Que destino o meu!

Até a próxima!

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7 Respostas to “20 Anos Atrás ! Um pouco da história das corridas em São Paulo”

  1. Patricia Says:

    Olaa
    Quero parabeniza-los pelos eventos da zarro e também gostaria de sugerir de fazer uma corrida já hoje temos a corrida e caminha contra o câncer para mulheres que também hoje homens pode partcipar.
    A zarro poderia fazer uma corrida dedicada ao homens numa forma de orientar na prevenção contra o câncer na Próstata pois acho que seria uma forma legal de orientar. fazer uma corrida contra o câncer da Próstata

    • donadio Says:

      Oi, Patricia
      Primeiro obrigado pelo prestigio e divulgação das nossas ações e eventos.

      Quanto a sua sugestão na promoção de uma corrida em prol ao cancer de prostata é muito interessante, mas para isso precisamos consolidar parceira com entidade especializada que tenham interesse na participar com as ações informativas e de esclarecimento. Também é preciso obter recursos que possibilitem a execução do evento.

      Não tenho duvida que seria muito gratificante a ação.
      Boas Corridas
      Alfredo Donadio

  2. neude Says:

    olá, boa noite!
    gostaria de saber se na história do atletismo brasileiro existiu um decatleta de nome Icaro de Castro Melo?
    obrigada!

  3. jose silva Says:

    O carro era um fusca

  4. milton rodrigues Says:

    boaa noitee,gostaria de saber se nessas corridas de sao silvestre a 20 anos atras,tinha um corredor por nome de:Francisco vicente da silva?EStamos a sua procura,

    • donadio Says:

      Procure essa informação com a YESCOM ou EVENTS (sr. Vasco) que são os organizadores da prova e com certeza podem dar um direcionamento

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