Quanto pesam 20 anos?

Em junho de 2009 completei 20 anos da minha primeira maratona, 10 anos da minha única ultra-maratona e a volta oficial às corridas longas depois de 10 anos. Realmente é muita coisa para uma só data!

O local escolhido para tanta comemoração foi o Rio de Janeiro e sua maratona que aconteceu domingo, 28 de junho de 2009.

Começando pelos 10 anos de volta as corridas oficiais, vale dizer que me surpreendi no dia da maratona ao encontrar vários amigos que estão na ativa, entre eles e para exemplificar, o Harry Thomas do site de corridas Webrun – companheiro das antigas – que está em plena forma física e mandou ver na prova. Também, gostei muito da Maratona do Rio e deixo aqui a sugestão: – aqueles que ainda não estiveram por lá deveriam, no próximo ano, se inscrever e participar.

Infelizmente, foi o pior tempo de toda a minha história de corredor, pior até mesmo da única vez que “quebrei” em San Diego, quando em 1.998 tentando baixar das 3 horas e por pura imprudência, forcei a barra desde a largada até quebrar no km 32.  Consegui com muita luta finalizar a prova em 4 horas. A diferença é que em San Diego, quebrei por que buscava performance, no Rio não considero como “quebra” e sim como pior desempenho da carreira. Apesar de não ter contado pra ninguém, a minha expectativa era algo por volta das 3h55. Essa era a meta desde quando defini que seria no Rio a minha volta e comecei a treinar pra valer.  

Nas primeiras oito semanas das doze que fazem parte do treinamento, evolui com consistência, tanto que aos finais de semana, mandamos bem com os longões de 30 e até mais km (vide relatos antigos do blog). 71275509

Mas, o mundo dá muitas voltas e as coisas inesperadas acontecem e não tomem o relato a seguir como desculpa esfarrapada de corredor inconformado, mas sim como fatos reais.

Vamos lá: – Infelizmente nas quatro semanas que antecederam a prova, além do forte resfriado que durou exatas 03 semanas, da chuva, do frio e das atribulações de praxe do dia a dia (estamos na “crise” lembram-se?), houve o agravamento da saúde de meu pai que infelizmente, para nós, terminou em óbito. Um triste acontecimento que tirou o foco, estímulo e tempo necessário para pensar em corrida e ter eficiência nos poucos dias de me propus a treinar no último terço do programa de treinamento.

Apesar disso tudo, não correr a maratona, não mudaria em nada o cenário pois os acontecimentos se passaram.  Ao contrário, só me deixaria mais para baixo adiando as ações e como queria muito voltar oficialmente às provas de longa distancia para testar os resultados (dores, tempo final, acertos, erros, etc.) e como desde o inicio da programação foi a Maratona do Rio a escolhida para a degustação e referencia após tanto tempo fora das provas, fui em frente e posso afirmar que não me arrependo nem um pouco da decisão e atitude.

Foi muito bom! Bom pela excelente companhia, bom pela viagem, bom pelo agito na feira e no dia do evento e muito bom pela satisfação de chegar feliz e saber que estou vivo e de volta oficialmente às maratonas.

De nossos amigos mais próximos inscritos no evento, só eu fui para a maratona, os outros que lá estiveram (alguns desistiram por vários motivos), optarão e fizeram a Meia Maratona. 

A minha programação era passar a Meia para 1h50m (o que aconteceu de fato) e após a Meia segurar o ritmo de + ou – 5’20” até o km32 que, ao menos para mim, essa sempre foi à hora da verdade. Depois do Km32, com folga de 1h10m para completar os 10.195 metros restantes e com muita cautela certamente atravessaria o pórtico de chegada por volta de 3h55m.

Tá, isso era a programação!

A verdade: – Correu tudo bem, até o km27 no meio da subida da Niemayer e, de repente, veio um desanimo grande e a vontade de parar….. inacreditavelmente (para mim) 5 km antes do previsto. Que dureza. Como é difícil encarar o “Dragão” antes da hora!

Para falar a verdade, não tive animo para lutar na intensidade que é preciso e também não entreguei os pontos totalmente, mas não teve jeito, faltava ainda muito e as minhas desculpas internas começaram a bater forte nos pensamentos – a gripe, o acontecimento com meu pai, o trabalho, a crise, os 10 quilos a mais no peso, a embolia do ano passado, o sol, um dó terrível que sentia de mim mesmo e tudo mais que era possível, martelando na cabeça e quando deixamos isso acontecer, não tem jeito, tudo desaba e cumprir os objetivos fica para outra oportunidade!

Mesmo assim, caminhava, trotava e pensava como chegar o mais rápido possível  ao final, afinal meus amigos estavam lá me esperando. Eles largaram uma hora antes da maratona e como fizeram a meia, na melhor das hipóteses, esperariam por mim mais de 3 horas e eu ali, “um Mané” morrendo de dó de mim mesmo, caminhando.

Irritado pensava: – Caminhar não era justo pra mim com “tanta experiência” e apesar do treino meia boca, não era justo! E, muito menos para eles que me esperavam e não tinham nada a ver com a minha péssima performance. Nessa hora, me esforçava e ao invés de caminhar, me arrastava trotando a um ritmo próximo aos 7 minutos por km que estava longe da programação, mas muito melhor que os 9 minutos caminhando. Mas e infelizmente cansava e lá estava eu de novo caminhando e pensando como sair dessa!

Uma boa motivação são as pessoas no percurso incentivando. Isto ajuda muito, pois é combustível para sairmos da caminhada e voltarmos ao trote. Outra é ver que um corredor que nos passou a pouco e nós, com o nosso trotinho sem vergonha, conseguimos ultrapassá-lo. Soberba? Naquela altura do campeonato se é soberba é branca e válida, pois não há o desejo de quebrar ninguém, só um estimulo para passar o próximo corredor. Certo ou errado, esse foi o método usado para vencer aos poucos cada km.

Nesses trotes e caminhadas forçadas pensei e refleti muito sobre esses anos todos. Percebi que o tempo passou rápido nestes 20 anos e que a “carcaça” não é mais a mesma e nem aceita mais desaforos e as minhas vontades. Os 42.195 metros estavam ali fazendo relembrar que nele como na vida é importante o treinamento, a dedicação e o foco. Que é impossível atingir nossos objetivos se não passarmos fase a fase dessa programação e se não fizermos a lição de casa direitinho!

Devaneios, humores e pensamentos a parte, chegamos ao km 40 e com a proximidade da chegada há o aumento da adrenalina que aumenta ainda mais a vontade da visão do pórtico. De repente, um pouco mais a frente, vejo o Marquinhos, meu treinador, que lá estava para me levar, com dignidade, à linha de chegada.

Seja lá o tempo que marca nosso cronometro e se estavamos ou não dentro da programação, nessa hora pouco importa, pois se para todos corredores o pórtico de chegada de uma maratona tem um sabor muito especial, imagine para alguém como eu que não sentia esse gosto há 10 anos, que pela primeira vez tinha o técnico correndo ao lado e vendo, na área vip, os amigos de treino e de viagem gritando, sorrindo incentivando e fazendo piadinhas…. foi muito bom!

Eles não sabem, mas me emocionei muito ao vê-los. A expressão de cada um somada ao pórtico de chegada me fez sentir a vida pulsar forte dentro do peito, apesar das minhas 4h20m de prova!

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É isso. Para terminar nosso papo de hoje, fica aqui a promessa que a próxima maratona vou treinar muito e fazer o “Bambu Gemer” (será?) e também a constatação que após 20 anos da primeira maratona, quando fiz 3h55m, não posso medir o tempo pelos meus cabelos brancos ou pelos 10 ou 11quilos a mais que hoje carrego comigo, mas sim pelos intermináveis 25 minutos a mais de corrida.

Resumindo: – 20 anos pesam mais 25 minutos.

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Até a próxima!

10 Respostas to “Quanto pesam 20 anos?”

  1. Harry Thomas Jr Says:

    Oi Alfredo,

    Adorei seu relato. E você sabe que tenho muita por você por voce e reconheço que o trabalho que vem desenvolvendo na Alphaville Running está entre os melhores do Brasil. Baita circuito!

    E me assustei com a enorme coincidência entre o que passamos! Tive um hiato de 5 anos em maratonas, de 2003 a 2008. Na maratona do Rio atingimos a meia com cerca de um minuto de diferença, no 27k/28k senti que “quebraria”, mas tinha folga de tempo para fazer sub 4 horas.

    E como você comecei a girar entre 6min a 7min/km. Resultado: meu pior desempenho em maratonas

    Voltemos ano que vem ao Rio para a forra!

    Grande abraço,
    Harry

    Devido a alguns fatores junho não pude treinar a contento, e a maratona cobra na hora as falhas de nossos treinos, fica como aprendizado.

  2. donadio Says:

    é isso ai……. as maratonas que nos aguarde!
    Obrigado pelas palavras, sucesso e boas corridas!

    Abração
    Alfredo

  3. Vera Says:

    Oi Alfredo,
    Parabens pelo retorno !
    Nao fique triste com seu tempo na maratona…..lembre o que Dr. John Bingham fala,sei que vc nunca sera um penguim , mas quem sabe te ajude um pouco……
    The miracle isn_t that you finished , the miracle is that you had the courage to star….
    Pense na sua proxima em Boston !
    Sinto muito pelo seu papai…..
    Um beijo…………..and keep running………..

  4. Reginaldo Bergmann Says:

    Cara Alfredo primeiramente meus pesames pela perda de seu pai, so quem ja passou por isso sabe com doi, bem..espero que o tempo o ajude a superar essa perda.Qto a maratona so uma palavra a dizer…parabéns… cruzar a linha de chegada nesse prova tem um sabor especial e seu tempo vou bom sim.Nos vemos num desses km ai pela frente ou 16-08 em Alphaville.abcs

    • donadio Says:

      Caro Reginaldo
      Obrigado pelas palavras, prestigio e divulgação de nossos eventos, blog e ações em geral.
      Nos vemos em 16 de agosto!
      Em muito breve estaremos no ar com ZARRONET.
      Aguarde e quando for a hora conto contigo para divulgação e utilização da ferramenta!
      Boas Corridas e Muito Sucesso
      Alfredo

  5. thomas Says:

    não sou corredor ,tentei ,tentei e tentei não consegui ir em frente .Primeiro parabéns pelo seu excelente desempenho
    segundo seu relato foi tão verossimil que me fez sentir um pouco lá .
    Obrigado
    P.s não desistirei de continuar tentando

  6. Paulo Santos Says:

    Ola Alfredo. Gostei muito do seu relato. Realmente algumas “coisas” pesam muito nos kms finais. Mas como sempre, você é o vencedor. abraço Paulo Santos

  7. donadio Says:

    Caro Paulo
    O portico de chegada é sempre um momento único e o “primeiro passo” para a próxima maratona.
    Abraço
    Alfredo Donadio

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