A DESCRIÇÃO PERFEITA

Estamos a menos de sessenta dias da I MEIA MARATONA ALPHAVILLE RUNNING que acontecerá – domingo – 19 de dezembro próximo, por isso achei extremamente oportuno o texto abaixo, não porque ele se refere as Meias Maratonas, mas sim porque, entre outras coisas é muito bem escrito, divertido, verdadeiro e tenho certeza será um incentivo para aqueles que após participarem da “nossa  Meia” se aventurarem na desafiante distância.

O texto recebi do amigo Reynaldo por email e foi publicado no jornal Folha de São Paulo – Ilustrada –  sábado, 23 de outubro.

Escrito pelo Dr. Drauzio Varella de quem sou fã incondicional não só por ele ser a referencia em medicina que é, nem pelas suas peripécias e trabalhos voluntários que já andou fazendo por ai, inclusive no falecido Carandiru, inspiração para livro e filme na telona, mas também por ser ele Drauzio Varella um maratonista e assim sendo, como formador de opinião e referencia, um multiplicador da atividade e das corridas de rua.

Então, depois de todo esse blá blá blá, vamos ao texto que para mim é magistral, pois retrata exatamente os humores, prazeres e desprazeres de um corredor de maratonas em ação.

Leiam e divirtam-se !

O Martírio da Maratona por Drauzio Varella


O quilômetro 21 desperta reações contraditórias: o alívio de que metade já foi e o medo do que vem

Vinha pela Rua Direita. Andar pelo centro de São Paulo me dá a sensação de que cresci e virei homem de verdade.

Na minha infância, no Brás, só os homens iam para a cidade. De terno e gravata, tomavam o ônibus Estações, desciam na Praça da Sé e andavam até a Xavier de Toledo para pagar a conta de luz, depois à da água e a do gás.

Nas proximidades da Praça do Patriarca, um homem corpulento sorriu em minha direção. Tive o bom senso de estender-lhe a mão antes do exasperante “lembra de mim?”.

Trinta quilos menos, ele tinha sido meu colega no Liceu Pasteur. Perguntou de minha vida, mais interessado em falar da dele e da aposentadoria que estava para chegar.

Quando lhe disse que, aos 49 anos, nem me passava pela cabeça à possibilidade de parar de trabalhar, adquiriu um ar grave:
– Você vai fazer 50 anos, idade em que começa a decadência.

Segui meu caminho. Quando entrei no largo São Bento, estava decidido: se conseguir correr 42 quilômetros, não me sentirei decadente.

Dezessete anos mais tarde, acabo de completar a décima maratona.

Não pretendo convencê-lo a fazer o mesmo, leitor, maratonas exigem condições anatômicas apropriadas, tempo e espaço para treinamentos e, sobretudo, determinação. Após um mês de treinamento, qualquer jovem que não fume é capaz de completar provas de 15 quilômetros como a São Silvestre; maratonas, não.

Na noite anterior, você acorda às 2h30 com a sensação de que perdeu a hora. Às 3h40, outro susto, que se repete 30 minutos mais tarde.

A largada é um mar de camisetas coloridas. O pelotão de elite dispara na frente; quase todos são negros. Jamais serão alcançados por qualquer adversário: correm a 20 km/h. Ganhará a competição o que tiver cara de mais doente.

A ralé larga como uma onda que avança com lentidão até encontrar espaço para correr. A excitação é grande, muitos gritam e pulam para comemorar; os mais experientes não abrem a boca.

É uma prova que exige planejamento. Em qualquer ponto do trajeto, a velocidade precisa levar em conta os quilômetros que faltam, o menor erro coloca tudo a perder. Do primeiro ao último colocado, todos testarão o limite das forças.

A torcida nas ruas faz um espetáculo à parte. Grita, bate palmas, carrega cartazes com o nome dos participantes, palavras de incentivo, faixas dizendo que só Jesus salva e que o caminho do céu exige sacrifício semelhante. Em pontos estratégicos, bandas de rua tocam músicas barulhentas.

Nos dois ou três primeiros quilômetros, o suor escorre e a respiração fica tão descontrolada que dá vontade de parar. Com esse fôlego ridículo, como ir até o fim?

Pouco a pouco, o ritmo respiratório e as batidas do coração se ajustam às necessidades dos músculos, a falta de ar desaparece e a sudorese diminui. O corpo entra em sintonia com o esforço exigido.

A passagem pelo quilômetro 21 desperta reações contraditórias: o alívio de que metade já foi e o medo do que vem pela frente. Se já custou chegar até aqui!

Ao redor do quilômetro 30, ficou para trás a euforia. Não fossem as manifestações da torcida, o silêncio seria sepulcral. Ninguém mais admira a paisagem, os olhares se concentram no asfalto; o pensamento, na mobilização da energia que resta para sobreviver.

Precisei de algumas maratonas para entender que elas começam no quilômetro 35, de fato, quando as forças abandonam o corpo e a aparência dos companheiros de infortúnio se torna lamentável. A julgar por ela, fica evidente que maratonas não podem fazer bem para o corpo humano.

Os quilômetros finais são dominados por um mantra que toma conta do cérebro: “Falta pouco, preciso chegar, falta pouco, preciso chegar…”. Os músculos das pernas parecem elásticos prestes a romper, as solas dos pés estão insensíveis, as costas doem, a cabeça fica oca, o corpo é um fardo insuportável, não há o que justifique um ser humano passar pelo que estou passando, mas não vim até aqui para andar, é preciso correr.

A visão da linha de chegada traz um pequeno alívio. Ao cruzá-la, nenhuma alegria, apenas a felicidade de parar de correr. Segundos depois, a plenitude de uma paz que parece barato de droga.

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9 Respostas to “A DESCRIÇÃO PERFEITA”

  1. CARLOS YUGI SHIBUYA Says:

    Bom dia, Alfredo. Li o artigo do Drauzio no próprio sábado antes da Etapa 4. Ele resumiu bem o sentimento que tive ao participar este ano de duas maratonas. Muito oportuna a divulgação. Recortei o artigo e levei para que a minha turma de treinamento funcional possa também se divertir. Abraços.

  2. donadio Says:

    É isso ai, ele foi muito feliz na narração. Que diga quem por ela já passou!
    abraço

  3. Marilucia Bernardi Says:

    Em primeiro lugar quero parabenizar o Drauzio pelo texto, tão brilhante, que retrata e muito bem a relidade.
    Em minha trajetória de corredora, corri e terminei 5 maratonas e já me bastaram. São Silvestre foram, se minha memória não me trai, 6. Agora só estou e muito bem, fazendo de 8 a 10km, 3 vezes na semana.
    Pra mim, maratona é metade físico e a outra metade cabeça, para conseguirmos terminá-la bem e inteiros.
    Um abração,

    • donadio Says:

      Cara Mari
      Apesar de estar longe das maratonas há algum tempo, ainda sinto uma enorme vontade e um prazer muito grande e inexplicavel só em pensar fazê-la. Se tiver um grupo envolvido então….. Por isso, acredito que agora com nossa MEIA MARATONA em 19 de dezembro, aqui em Alphaville, muitos dos que lá estarão (veteranos ou não), aproveitarão a satisfação que se tem ao terminar uma Meia Maratona e a oportunidade de estar entre amigos. Quem sabe desse encontro não saia uma programação para outra bela e desafiadora maratona em 2.011?

      Acredito que quando colocamos um novo objetivo este acaba nos levando a ter disciplina e foco que são obrigatórios para quem quer desenvolver bons treinos e por isso, não há lugar para preguiça. Acabamos nos alimentando e dormindo melhor e assim somos levados a cumprir nossas programações com mais empenho, inclusive as profissionais.

      Para que isso?
      Não sei quanto aos outros, mas para mim, treinar, largar e completar mais uma maratona me faz sentir VIVO, sem falar no grande prazer e emoção do final da prova. Certamente, quanto mais os anos passam, em nosso intimo, mais prazeiroso é terminar um desafio desse.

      É isso.
      Bj
      Alfredo

  4. CARLOS YUGI SHIBUYA Says:

    Boa tarde, Alfredo. Acabei de ver os três vídeos do percurso da Meia maratona. Achei legal e muito instigante. Preciso ver melhor novamente e estudar o percurso. Mas tenho uma dúvida: quem for fazer solo logicamente vai fazer os 3 trechos sem problema, porém quem for fazer em dupla ou trio vai fazer cada trecho igual em 2 X 10,5 ou 3 X 7? Onde seriam os postos de troca? Minha preocupação é no sentido de definir os trechos pois estou inscrevendo mais dois colegas de minha equipe na Flávio Freire. Abraços. E belo trabalho!

  5. donadio Says:

    Oi, Carlos
    Vamos lá, para facilitar e ampliar as informações a partir das suas duvidas, vou publicar hoje um novo post no Blog, OK?
    Permanecendo duvidas, vamos esclarecendo
    Abração e MUITO OBRIGADO pelo envolvimento e divulgação da prova 🙂
    Alfredo

  6. CARLOS YUGI SHIBUYA Says:

    Bom dia, Alfredo. Acabei de ver o novo post sobre a Meia Maratona. Agora está bem esclarecido. Legal. Gostei muito. Entendi o seu objetivo. Equipes mistas, não só de homens com mulheres, corredores mais jovens com mais velhos, mas também corredores de curta e longa distãncia. Já me inscrevi para SOLO, como já te informei, eu e o Flávio Freire, meu técnico gostamos de provas longas. Mas com essa sua proposta o desafio técnico passa a ser muito interessante. Estou preparando um trio! Grato por esclarecer. Nos falamos até lá. Abraços.

  7. donadio Says:

    Oi, Carlos
    Bom dia
    A idéia é “abrir o leque” e dar opção para que os corredores tenham um desafio, individual ou em equipe, e muita festa, muita confraternização, afinal estamos fechando com chave de ouro a temporada de corridas de 2010.
    Obrigado pelo prestigio e divulgação.
    Vamos em frente
    Alfredo

  8. vitoria doandio Says:

    Nossa esse boog é muito bom adorei lii todas paginas ele é muito bom !
    estão de parabéns !

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